Notícias Coletivo Aspas Duplas Inova O Mercado Editorial Ao Abrir Espaço Para Novos Escritores

Coletivo Aspas Duplas Inova O Mercado Editorial Ao Abrir Espaço Para Novos Escritores

Em um país onde publicar um livro ainda é, para muitos autores iniciantes, uma espécie de travessia improvável, iniciativas independentes têm surgido para ampliar o acesso à literatura. Entre elas, o Coletivo Aspas Duplas, um coletivo literário que vem se destacando por apostar em uma ideia simples, mas poderosa: democratizar o ato de publicar e de participar da vida literária.

Trata-se de um coletivo artístico brasileiro com sede em Osasco, São Paulo, dedicado ao fomento da literatura lusófona, com destaque para a produção de antologias e coletâneas temáticas, criado em 2017 pelo professor e escritor Rafael Caputo.

O desafio é grande. O mercado editorial brasileiro atravessa uma fase de retração e concentração. Dados da pesquisa Produção e Vendas do Setor Editorial Brasileiro, conduzida pela Câmara Brasileira do Livro e pelo Sindicato Nacional dos Editores de Livros, indicam que o setor acumulou uma queda real de cerca de 44% no faturamento entre 2006 e 2024.

Além disso, embora o país produza dezenas de milhares de títulos por ano, boa parte deles não corresponde a novos autores. Em 2024, por exemplo, foram produzidos cerca de 44 mil títulos, mas apenas 23% eram lançamentos inéditos, enquanto 77% eram reedições de obras já existentes.

Ou seja: para quem está começando, o espaço nas prateleiras costuma ser limitado.

Ao mesmo tempo, o Brasil enfrenta um paradoxo cultural. Apesar da forte tradição literária, apenas 52% da população pode ser considerada leitora, segundo a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil. Esse cenário — poucos leitores regulares e um mercado editorial cada vez mais cauteloso — faz com que editoras tradicionais apostem em nomes já consolidados, celebridades ou obras estrangeiras com sucesso comprovado.

É nesse ponto que iniciativas como o Coletivo Aspas Duplas ganham relevância.

Literatura como espaço coletivo

Criado com a proposta de reunir autores iniciantes e experientes em projetos colaborativos, o coletivo se consolidou como uma espécie de laboratório literário aberto. Em vez de priorizar apenas nomes já conhecidos, o grupo aposta na construção de coletâneas temáticas que permitem a participação de novos escritores ao lado de autores mais experientes.

Na prática, é bem diferente de um concurso literário, e cria um ambiente que mistura aprendizado, experimentação e visibilidade... algo raro no mercado editorial tradicional.

A escritora mineira Ornella Otoni, participante de diversas antologias organizadas pelo coletivo, resume essa experiência em um depoimento que circula entre os integrantes:

“Situar o Coletivo Aspas Duplas em minha trajetória não é apenas um exercício de gratidão, é o reconhecimento de uma singularidade compartilhada. Para mim, o Aspas Duplas não funciona como um molde que padroniza estilos, mas como uma lente que foca e amplia as nossas identidades individuais. Se a escrita é, por natureza, um ato de exposição, este coletivo é o lugar onde a vulnerabilidade se transforma em força. Ao contrário de grupos puramente comerciais, aqui existe uma simbiose técnica. O meu texto cresce porque o olhar do outro não busca corrigi-lo, mas expandi-lo.”

Essa lógica colaborativa acaba funcionando também como uma espécie de formação informal para novos autores, que passam a ter contato com processos editoriais, revisões coletivas e divulgação literária.

O impacto das coletâneas

Entre os projetos que ganharam destaque estão duas coletâneas que alcançaram um feito raro no universo da autopublicação.

A antologia Versoaliv, uma reunião de poemas concebidos como “remédios literários para a alma”, alcançou o primeiro lugar em vendas na plataforma Uiclap em novembro de 2025.

No ano seguinte, outra coletânea do grupo repetiu o feito: Vinhos e Versos também liderou o ranking da plataforma, consolidando o coletivo como um dos projetos independentes mais ativos no circuito de publicação sob demanda.

Esses resultados demonstram o potencial das redes literárias organizadas fora das grandes editoras, especialmente em plataformas de autopublicação.

A força das plataformas independentes

Hoje, boa parte das obras do coletivo está disponível em plataformas de impressão sob demanda e autopublicação, como a Uiclap e o Clube de Autores.

Esse modelo tem transformado o mercado editorial. O próprio Clube de Autores, por exemplo, reúne mais de 60 mil autores e mais de 80 mil títulos publicados, além de centenas de pequenas editoras que utilizam o sistema para distribuição e vendas.

A autopublicação, que antes era vista como um caminho marginal, tornou-se uma alternativa legítima para ampliar a diversidade literária e permitir que novos autores cheguem ao público.

Uma rede literária que atravessa fronteiras

Embora muitos participantes estejam concentrados no eixo Rio–São Paulo, o Coletivo Literário Aspas Duplas vem construindo uma rede cada vez mais ampla.

Entre seus autores há participantes de diversas regiões do Brasil e também do exterior, incluindo Portugal, França, Itália, Moçambique, Angola e Suíça. Essa diversidade geográfica tem ampliado o alcance cultural das obras e reforçado a ideia de que a literatura contemporânea se constrói cada vez mais em rede.

Democratizar a literatura

Rafael Caputo, escritor finalista do Prêmio Kindle de Literatura e criador do Coletivo Aspas Duplas nos conta que: "o trabalho do Coletivo aponta para uma pergunta maior: quem tem o direito de publicar?", ou ainda, "quem define o valor de uma história?".

Historicamente, o mercado editorial funcionou como um sistema altamente seletivo, no qual poucos autores conseguiam atravessar as portas das grandes editoras. Hoje, com a expansão da autopublicação e das redes literárias independentes, esse cenário começa a mudar. "Quem define o valor de uma história é o leitor, e só ele!", conclui o fundador do Coletivo.

Ao abrir espaço para novos escritores, Caputo e seu Coletivo Aspas Duplas demonstram que democratizar a literatura não significa apenas publicar mais livros... significa ampliar as vozes que podem contar histórias.

E talvez seja justamente dessa multiplicidade de vozes que a literatura brasileira precise para continuar se reinventando.

Site do Coletivo: www.coletivoaspasduplas.com.br

Instagram: @coletivoaspasduplas

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