Ciência Vacinação: Uma Estratégia De Proteção Contra Demência E Doenças Cardiovasculares

Vacinação: Uma Estratégia De Proteção Contra Demência E Doenças Cardiovasculares

por Maria Isabel de Moraes-Pinto, médica infectologista e coordenadora de vacinas na Dasa 


Por muito tempo, as vacinas foram vistas quase como um rito da infância. Lembramos das idas ao posto de saúde, das carteirinhas carimbadas e até das lágrimas das primeiras picadas. Mas a imunização não se limita a esse começo de jornada. Hoje, sabemos que, em qualquer fase da vida, ela continua sendo uma poderosa aliada para garantir saúde, vitalidade e autonomia. 


Quando pensamos em vacinar adultos e idosos, não pensamos apenas em evitar infecções. Estamos falando de proteger o coração, preservar funções neurológicas e manter a independência. Esse é um ponto que tenho defendido em diferentes espaços: vacinar é cuidar de forma integral, é promover saúde em sentido amplo, sobretudo para populações vulneráveis como gestantes, idosos e pessoas imunossuprimidas (1). 


As evidências científicas têm reforçado isso. Um consenso clínico da Sociedade Europeia de Cardiologia, publicado no periódico científico European Heart Journal, destaca que vacinas contra influenza, SARS-CoV-2, vírus sincicial respiratório e herpes-zóster podem reduzir significativamente os eventos cardiovasculares adversos maiores (MACE) em pessoas imunizadas, especialmente em grupos de risco como idosos e pacientes com doenças cardíacas crônicas. A vacinação contra influenza, por exemplo, demonstrou uma redução de até 41% na mortalidade cardiovascular em pacientes pós-infarto, evidenciando que proteger contra infecções respiratórias também significa potencializar o resguardo do coração de complicações graves (2). 


Outro avanço marcante vem de uma revisão narrativa publicada na revista científica Pathogens, que explora doenças infecciosas como fatores de risco modificáveis para demência. Este estudo aponta que infecções virais e bacterianas, como as causadas por HIV, herpes simplex e doenças periodontais, estão associadas a um maior risco de demência, possivelmente por meio de neuroinflamação. Mais impressionante ainda é a sugestão de que vacinas contra influenza, herpes-zóster e hepatite, assim como tratamentos antivirais, podem reduzir a incidência de demência, oferecendo uma nova perspectiva de prevenção que vai muito além do combate às infecções primárias (3). 


Na prática clínica, vejo diariamente como tudo isso se traduz em vidas preservadas. Cada internação evitada é uma chance a mais de manter capacidades funcionais, reduzir a fragilidade e proteger a autonomia. Isso, para mim, é um dos maiores valores da imunização: oferecer não apenas anos de vida, mas anos de vida com independência e dignidade. 


Entre as vacinas mais importantes para adultos acima de 60 anos e pessoas com doenças crônicas estão: Influenza (preferencialmente a versão de alta dose para idosos), Pneumocócica conjugada multivalente, herpes-zóster recombinante, SARS-CoV-2 (com reforços semestrais) e a dTpa (contra tétano, difteria e coqueluche). 

Essas descobertas reforçam a ideia de que vacinar é um ato de proteção multidimensional. Quando olhamos para esse conjunto, fica claro: a vacinação vai muito além de conter epidemias. 


Ela é um investimento em longevidade saudável, em proteção para a família e em mais tempo de vida vivido com autonomia. Acredito que, ao adotar essa visão ampliada, damos um passo importante não apenas para mudar a forma como envelhecemos, mas também para fortalecer os laços de cuidado coletivo. Porque vacinar não é só proteger a si mesmo — é, sobretudo, cuidar uns dos outros. 


Referências 

1. DASA EDUCA EVENTOS. Simpósio de Infectologia Dasa - Rede Américas 2025. Disponível em: https://dasaeducaeventos.com.br/app/simposio-de-infectologia-dasa-rede-americas-2025/dashboard/. Acesso em: 1 set. 2025. 

2. Heidecker B et al. Vaccination as a new form of cardiovascular prevention: a European Society of Cardiology clinical consensus statement. European Heart Journal, [S.l.], p. 1-14, 2025. DOI: 10.1093/eurheartj/ehaf384. 

3. Farrer TJ et al. Infectious Disease as a Modifiable Risk Factor for Dementia: A Narrative Review. Pathogens, [S.l.], v. 13, n. 11, p. 974, 2024. DOI: 10.3390/pathogens13110974 

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