Notícias Cais Fantasma: Como Uma Empresa Sem Gás, Sem Contrato E Sem Navio Travou O Porto De Suape Por Mais De Dois Anos

Cais Fantasma: Como Uma Empresa Sem Gás, Sem Contrato E Sem Navio Travou O Porto De Suape Por Mais De Dois Anos

Documentos públicos mostram que a Aruanã Energia S.A. (OnCorp) ocupou por mais de dois anos o Cais de Múltiplo Uso (CMU) do Porto de Suape sem apresentar um único contrato firme de venda de energia, sem FSRU contratado e sem cronograma real. Em janeiro de 2026, a ANTAQ abriu apuração sobre o caso. Suape indeferiu o pedido de prorrogação.


O Porto de Suape, um dos maiores complexos portuários da América do Sul e porta de entrada do Nordeste para o comércio internacional, teve um de seus ativos mais estratégicos — o Cais de Múltiplo Uso (CMU) — parado por mais de dois anos. Não por falta de interessados, nem por obra de um desastre natural. Mas por conta de um projeto de usina termoelétrica que nunca saiu do papel, pertencente à empresa Aruanã Energia S.A., conhecida comercialmente como OnCorp.


A constatação emerge de processos administrativos públicos do Sistema Eletrônico de Informações (SEI) do Governo do Estado de Pernambuco, analisados para esta reportagem. Os documentos revelam, com rara nitidez, a sequência de omissões técnicas, ausências documentais e prazos descumpridos que culminaram no indeferimento formal do pedido de prorrogação contratual pela administração do Porto de Suape — e na abertura de procedimento de apuração pela Agência Nacional de Transportes Aquaviários (ANTAQ).


O projeto que nunca existiu de verdade


Em 2023, a Aruanã Energia S.A. (OnCorp) apresentou ao governo pernambucano um projeto de uso do CMU vinculado à implantação de uma usina termoelétrica. Na prática, o documento prometia geração de energia a partir de gás natural, com uso de uma unidade flutuante de armazenamento e regaseificação (FSRU), infraestrutura indispensável para esse tipo de empreendimento.


O problema: desde as primeiras análises técnicas, os registros administrativos do SEI já sinalizavam que o empreendimento não possuía contratos firmes de suprimento de gás, nem lastro comercial de energia capaz de assegurar a viabilidade operacional no horizonte apresentado. Em outras palavras, a empresa prometeu o que não tinha condições de entregar.


Também não havia cronograma exequível, nenhuma FSRU contratada ou sequer identificada, e o licenciamento ambiental não avançou. O projeto, nos termos dos próprios documentos de SUAPE, permaneceu em nível conceitual — o que tecnicamente significa: uma ideia sem estrutura, sem recursos e sem lastro real.


Dois anos de silêncio documental


Se 2023 já deixava dúvidas sobre a seriedade do projeto, 2024 as confirmou. Ao longo de todo o ano, as áreas técnicas do Porto de Suape não encontraram, nos autos administrativos públicos, qualquer documento novo capaz de sanar as fragilidades identificadas. Nenhum contrato de venda de energia — nem no Ambiente de Contratação Regulada (ACR), que envolve distribuidoras, nem no Ambiente de Contratação Livre (ACL). Nenhuma garantia financeira. Nenhuma comprovação de FSRU disponível.


O CMU seguiu ocioso. O prazo original do contrato expirou sem que qualquer operação efetiva fosse iniciada. Uma área portuária estratégica — com capacidade para movimentar cargas de grande porte, receber navios de longo curso e impulsionar a logística do Nordeste — ficou literalmente parada, aguardando um projeto que não avançava.


O pedido de prorrogação e o indeferimento formal


Em 2025, diante do impasse, a OnCorp formalizou um pedido de termo aditivo — ou seja, uma prorrogação do contrato — com o objetivo de manter a ocupação do CMU. A solicitação, no entanto, não veio acompanhada de nenhum elemento técnico novo ou superveniente que alterasse o quadro já conhecido.


A resposta de Suape foi direta e fundamentada. Em ofício oficial juntado aos autos do SEI, a administração do porto indeferiu formalmente o pedido. O documento destaca que a empresa não apresentou documentos novos ou supervenientes capazes de alterar o cenário de inviabilidade identificado, notadamente no que se refere à inexistência de fornecimento firme de energia, à ausência de lastro contratual e à não comprovação de disponibilidade de infraestrutura flutuante (FSRU).


O mesmo ofício vai além e aponta que a manutenção da ocupação do CMU, sem operação efetiva e sem perspectiva concreta de implantação, contraria o interesse público e os princípios da eficiência e da boa gestão do patrimônio portuário. Uma declaração de rara contundência em documentos administrativos públicos.


ANTAQ entra em cena


O caso ganhou repercussão nacional em janeiro de 2026, quando a Revista Veja, na coluna do jornalista Matheus Leitão, noticiou a abertura de procedimento de apuração pela Agência Nacional de Transportes Aquaviários (ANTAQ) relacionado ao projeto no CMU do Porto de Suape. A agência reguladora passou a examinar, entre outros aspectos, a falta de entrega do projeto prometido e a permanência de um cais estratégico sem qualquer uso efetivo.


A atuação da ANTAQ representa um novo patamar de escrutínio sobre o caso e reforça a necessidade de que decisões administrativas sobre a área sejam motivadas, transparentes e orientadas ao interesse público — valores explicitamente invocados pelo próprio ofício de indeferimento de Suape.


O que está em jogo


O CMU do Porto de Suape não é uma área qualquer. Integra uma das maiores plataformas logísticas do hemisfério sul, com acesso ao Oceano Atlântico e posição geográfica privilegiada para exportações brasileiras. Mantê-lo ocioso representa não apenas desperdício de infraestrutura pública, mas perda de competitividade, de empregos e de arrecadação para Pernambuco e para o Brasil.


Sob essa perspectiva, o indeferimento do pedido de prorrogação da OnCorp é mais do que uma decisão administrativa: é um acerto de rumo. A conclusão dos documentos analisados é clara — a Aruanã Energia S.A. (OnCorp) não demonstrou, ao longo de mais de dois anos, as condições técnicas, econômicas e regulatórias mínimas para implantar o projeto originalmente proposto. E a infraestrutura estratégica que ocupou precisa, agora, de um operador real.



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